22/01/2018

UM PODER LEGÍTIMO

Volmer Silva do Rego

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Radiocraciar3go – 

Lembro-me de, não há muitos anos, um conhecido gabar-se de possuir uma quantidade enorme de músicas em arquivos digitais, algo que, segundo ele, seria praticamente impossível de ser escutado em sua totalidade por uma única pessoa. Voltando mais no passado, recordo-me de estar diante do meu “três em um” tentando gravar, numa fita K7 limitada a 60min, uma música do rádio pela qual eu esperara angustiado (para quem não sabe, quando não se conseguia os discos desejados, era assim que se fazia nas casas dos menos afortunados).

Essas lembranças esboçam transformações importantes nas formas de se ouvir música. Um contraste entre a “penúria” e a “fartura”. Estaríamos, então, hoje, mais satisfeitos com todas essas possibilidades de acesso ao som que desejamos? Apesar da cultura do descartável, do consumismo e do excesso, ser violenta condutora de mentes, acrítica e produtora de infames autoelogios, e a música e sua apreciação estarem também submetidas a seus ditames; é sintomático e surpreendente o fato de discos de vinil estarem novamente no mercado.

Esse ressurgimento indicia faltas, talvez do prazer de se apreciar música sem pressa, num degustar sem ansiedade por tudo o que se tem para ouvir, desejo de centrar-se, de combater a dispersão aterradora que atinge a todos; ou, ainda, da ausência da seleção e da ordem preparada pelo artista para o disco, tentativa de gerar coerência nem sempre alcançada. Contudo, pode-se argumentar que a maioria das pessoas estejam satisfeita, alheia a essas questões, mas pensar assim é esquecer de uma força quase secular que não desapareceu, e que supre essas ausências: o rádio.

Ouve-se rádio (e não importa o meio de transmissão) porque ele nos surpreende, ora nos agrada, ora nos incomoda, indiferença não cabe. Você “degusta”, sabe que a música tardará a surgir novamente. Na constelação de rádios, sempre haverá um razoável número delas que lhe interesse; e, diferentemente de buscar músicas isoladas numa lista pessoal, ouvir rádio é mais, é buscar afinidades, uma espécie de diálogo com aquele que do outro lado trabalha para levar o artista até você, aquele “curador” que tenta dar algum sentido a toda aquela manifestação musical.

Trato, aqui, apenas do ato de ouvir música, algo que já garante a vitalidade do rádio, mas você sabe que ele pode ter outras múltiplas formas de nos “capturar”. Falo do rádio como uma força, ou seja, um poder, mas não qualquer poder, o rádio não é impostor, somos nós quem decidimos se ficaremos ou não atentos, se trocaremos ou não de difusora (nunca ouvi falar de alguém que precisasse ir a uma clínica de recuperação por não conseguir desligar o rádio). Por isso, e por muito mais, viva a radioterapia! Bem-vinda a Radiocracia!

 

Fabiano Trigo –

fabianotrigo@gmail.com

About Volmer Silva do Rego

Jornalista, Professor, Escritor...

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