16/12/2017

Artigo – Profº Jeasir Rego – UDESC

Volmer Silva do Rego

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Tags: Músicos Professor Profissão

UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC

CENTRO DE ARTES – CEART

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MÚSICA- PPGMUS

 

Florianópolis, 3 de Outubro 2014

Mestrando: Jeasir Rego

e-mail: jeasir.udesc@gmail.com

Disciplina: Formação Docente

Profª. Drª. Teresa Mateiro

 

REFLEXÕES SOBRE A IDENTIDADE DO MÚSICO PROFESSOR E O SEU STATUS NA PROFISSÃO

 

O propósito deste ensaio é trazer algumas reflexões acerca do tema ‘Identidade profissional do músico professor em escola de ensino regular fundamental’, considerando o músico enquanto músico e enquanto professor de música atuante neste contexto, entendendo-o como aquele que, inserido em um contexto destituído do mesmo status social, o do artista, de alguma maneira se envolve em um dualismo identitário. Tais reflexões surgem a partir da leitura de textos e provocações publicadas por Antônio Nóvoa em 1990 e 2000 que fazem referência às transformações histórico-sociológicas no estatuto da profissão docente e nas histórias de vida relatadas em metodologias que valorizam a pessoa deste profissional, a pesquisa sobre relatos da história oral.

Tive a experiência de perguntar a um músico, também professor em escola regular do sistema público, qual era sua profissão e a resposta não veio imediatamente, assim como talvez fizesse um médico, um bancário ou um dentista. Houve um breve silêncio até que soasse a resposta “sou músico”. Depois remendou, “sou professor de música também”.  Embora pareça ser um caso isolado e de insuficiente representatividade, portanto sem legitimidade científica – pelos menos na perspectiva acadêmica pertinente ao campo das ciências humanas e por não configurar uma amostragem válida, a afirmação deixou transparecer uma pequena sombra de dúvida. Ainda que soubesse que se tratava de um guitarrista, um músico convicto de sua profissão, apenas na segunda reposta a palavra professor foi pronunciada, no entanto com uma exclamação em sua face.

Na análise de Nóvoa (1991) para a realidade de Portugal, tal insegurança ou dualidade identitária tem raízes históricas. As transformações sociológicas do professorado no Brasil em muito se assemelham às daquele país, principalmente se tomarmos emprestado da Antropologia e Sociologia os conceitos de identidade e considerarmos nesta perspectiva que o nosso país (Brasil) ainda carregava, até meados do século XX, resquícios profundos de colônia portuguesa, já que antropologicamente isso signifique que

Ter uma identidade seria, antes de mais nada, ter um país, uma cidade ou um bairro, uma entidade em que tudo o que é compartilhado  pelos que habitam esse lugar se tornasse idêntico ou intercambiável. Nesses territórios a identidade é posta em cena, celebrada nas festas e dramatizada também nos rituais cotidianos. (CANCLINI, 2003. p. 190).

Do ponto de vista antropológico, entender o conceito de cultura, assim como o de território é imprescindível para o entendimento de identidade. O entendimento e a busca pela identidade nacional brasileira, p.ex. é notada durante todo o século XX em escritores como Mário de Andrade, em compositores como Villa-Lobos, em antropólogos como Gilberto Freyre, historiadores como Caio Prado Júnior, além de diversos intelectuais, políticos, artistas e estudiosos. O conceito de identidade, assim, foi sendo construído, assumindo perspectivas diversas quando o enfocamos com ‘lentes’ filosóficas, antropológicas, sociológicas ou ainda psicológicas.

O Dicionário de Conceitos Históricos de Kalina V. Silva e Maciel H. Silva traz uma definição do verbete oriunda da filosofia, onde identidade é o “caráter do que permanece idêntico a si próprio; como uma característica de continuidade que o Ser mantém consigo mesmo” (2006, p. 202). Esse conceito já estava posto na Antiguidade clássica, em Aristóteles, onde se lê que “em sentido essencial, as coisas são idênticas no mesmo sentido em que são unas, já que são idênticas quando é uma só sua matéria – em espécie ou em número, ou quando sua substância é una.” (ABBAGNANO, 2007. p. 529).

O mesmo conceito em psicologia ata-se ao indivíduo procurando as relações íntimas do que é entendido como self, estabelecendo relações não mais compreendidas ao nível do objeto, mas ao nível do sujeito. Com essa finalidade, seria necessário libertá-las do objeto e considerá-las como representações simbólicas de complexos subjetivos (JUNG, 1980), entendendo a subjetividade como o espaço íntimo do indivíduo, seu mundo interior, ontológico, o conjunto estruturado de termos e conceitos que representa um conhecimento sobre o mundo[1] e manifesto em si mesmo. No Dicionário de Psicologia (1996), identidade é a consciência do si próprio, do “lugar” e tempo que se ocupa no mundo, considerando que a inserção no tempo e contexto histórico tem influência direta na configuração da persona, conceito formado inteiramente a partir de análise do paciente como Ser único.

Sociologicamente o termo adquire conotação de igual complexidade. O Dicionário de Ciências Humanas de Dortier, (2010) apresenta três domínios de estudos oriundos da literatura atual, a saber, a Identidade Coletiva, a Identidade Social e Estatutária e a Identidade Pessoal.

Para o propósito deste ensaio o conceito que melhor se adéqua às provocações reflexivas de Nóvoa (1990, 2000) é o de Identidade Social e Estatutária, por se tratar de uma classe profissional, um grupo determinado que ocupa uma posição na sociedade.

Dortier (2000), no verbete em questão, coloca que a este estatuto profissional “correspondem papéis e códigos sociais mais ou menos claros” […] havendo uma “recusa das concepções de sociedade que parte do indivíduo isolado, assim como de uma sociedade que forma um todo que ultrapassa e engloba os indivíduos” […] “A identidade, ou ‘eu’, é constituída do conjunto das imagens que os outros nos enviam e que interiorizamos”. (p.283).

Assume-se a partir disso que o conceito relaciona-se diretamente com  o sentido coletivo de Ser, ou seja, pertencimento e reconhecimento em conjunção com o outro, com o grupo, comunidade ou sociedade, sendo esta conceituação a ‘lente’ que norteia as reflexões críticas aqui apresentadas.

Atentando para a compreensão de cada uma destas áreas das ciências humanas podemos compreender mais profundamente as considerações de Nóvoa (1991) ao afirmar que se

Por um lado, o Estado exerce um controlo autoritário dos professores, inviabilizando qualquer veleidade de autonomia profissional: a degradação do estatuto e do nível científico inserem-se nesta estratégia de imposição de um perfil baixo da profissão docente. Por outro lado, o investimento missionário (e ideológico) obriga o Estado a criar as condições de dignidade social que salvaguardem a imagem e o prestígio dos professores, nomeadamente junto das populações. A ambiguidade resolve-se através do reforço da carga simbólica da acção docente, no interior e no exterior da escola. (NÓVOA, 1990).

Nota-se que, embora o autor esteja se referindo a realidade de seu país, há um conflito identitário semelhante claramente demonstrado na realidade brasileira, quando ao mesmo tempo em que se propaga pelas mídias de massa a importância social deste profissional se desvaloriza a produção de sua própria vida social, se degrada sua situação sócio-econômica.  Um mal-estar profissional com origem no próprio sistema de controle que o Estado mantém sobre a educação[2], sobre o que se ensina para quem se ensina e para quê se ensina e, sobretudo, quem ensina, que se estende até os dias de hoje.

Conscientes destas questões e de como elas exercem influência na pessoa profissional do docente, gerando certo tipo de constrangimento social em se assumir como professor – uma classe proletarizada e com sua identidade confusa – a academia, na figura de seus doutores pesquisadores, passa a se interessar com o que pensam e como agem estes atores sociais, suas práticas, trajetórias e formações no afã de elaborar respostas propositivas para a problemática educacional.

A metodologia de pesquisa científica de abordagem (Auto)Biográfica, justifica-se, segundo NÓVOA (2000, p. 18)  na própria crise dos paradigmas  hegemônicos da sociologia e das ciências humanas. O sujeito pesquisado passa a ter voz, sua história de vida revela questões, “individualiza a generalidade de uma história social coletiva” (FERRARETTI 1998, apud NÓVOA, 2000. p. 18), reapropria a universalidade do coletivo social para interpretar sua função a partir da especificidade da práxis individual.

A metodologia Narrativa como as do tipo biográficas, história de vida, história oral, auto-etnográficas e biografias educativas têm sua gênese nos discursos do indivíduo e suas práticas contextualizadas no âmbito concreto do seu cotidiano, no caso do professorado, procurando aproximar as realidades educativas ao cotidiano dos educadores. Este discurso, de acordo com Creswel (2014), pode ser analisado segundo alguns pressupostos filosóficos e formas diferentes, começando com “experiências expressas nas histórias vividas e contadas pelos indivíduos” (p.70) pesquisados. Este autor identifica orientações pós-modernas, desenvolvimentistas, sociológicas com diversas linhas ideológicas, psicológicas e seja qual for a orientação ideológica do pesquisador, o entendimento dos fundamentos de sua identidade podem ser percebidos e analisados.

No Estudo biográfico, as experiências de vida do pesquisado são registradas, estudas e analisadas pelo pesquisador. Diferente da Autoetnografia em que o registro destas experiências são escritas pelo próprio investigado. Creswel (2014, p.70), cita a definição de outro pesquisador, Muncey (2010), onde a Autoetnografia se caracteriza pela idéia de “múltiplas camadas de consciência, do self vulnerável, do self coerente, abordando o self inserido no contexto social”.  É preciso, ainda segundo o autor, considerar que o discurso do pesquisado pode subverter o discurso dominante trazendo assim um potencial evocativo onde o significado cultural da história de quem escreve, do autor da narração, está presente na exposição de fatos, problemas, situações diversas que nas entrelinhas influenciam a análise deste dados.

Nóvoa (2000) coloca que as abordagens Narrativas trouxeram na sua diversidade de olhares e perspectivas a possibilidade de conjugar estes discursos, compreendendo-os de forma multifacetada para situar a multiplicidade de saberes que cada sujeito apresenta. O autor sistematizou uma matriz com nove tipos de pesquisa, cujo objeto foi o professor enquanto pessoa, as práticas deste e a profissão deste indivíduo. Estes tipos de pesquisa tiveram objetivos distintos, mas sempre focadas na figura do professo, sendo divididas em enfoques Teóricos, Práticos e de Formação ou emancipatórios:

  • Objetivos com o foco teórico relacionados com a investigação versus Referem-se a pessoa do professor, com dados colhidos em metodologia de História oral ou em História de vida, enfocando nos problemas de saúde mental, stress ou fases distintas da vida pessoal.
  • Objetivos com o foco teórico relacionados com investigação versus as práticas dos professores. A busca pela compreensão das práticas pedagógicas a partir das narrativas ou descrições colhidas, história de vida, diários de classe.
  • Objetivos com o foco teórico relacionando a investigação com a profissão docente. Estudos sobre o ciclo de vida dos professores utilizando-se de metodologia autobiográfica, focadas nos relatos sobre as condições de exercício da profissão no plano institucional

A outra espécie de objetivo recai sobre a Prática profissional relacionada a sua formação, a formação docente:

  •         Objetivos essencialmente práticos, formação versus pessoa. As práticas de formação, do desenvolvimento pessoal,  considerando a autoformação utilizando metodologia biográfica,  curriculum vitae, histórias de vida.
  •         Objetivos essencialmente práticos, relacionando a formação versus as    práticas do professor. Narrativas orais, relatos escritos, memória  recuperada com o objetivo de produzir reflexões autoformadoras.
  •         Objetivos essencialmente práticos, relacionando a formação versus profissão. Mais relacionados ao caráter institucional, no contexto da formação inicial, práticas alternativas com dimensões autorformativas.

As biografias educativas se debruçaram às iniciativas de profissionais que desempenharam o papel de objeto e sujeitos das pesquisas, simultaneamente. Os objetivos são essencialmente emancipatórios:

  •         Objetivos essencialmente emancipatórios, relacionando a investigação- formação versus pessoa do professor. A história de vida dentro do processo de formação continuada.
  • Objetivos essencialmente emancipatórios, tem relação com a investigação da formação docente versus as práticas dos professores. Experiências autobiográficas apoiadas na transformação das práticas,  com metodologias de tipo pesquisa-ação colaborativa ou em grupos de formação–ação. A problematização das inovações faz parte dos enfoques nestas pesquisas.
  •         Objetivos essencialmente emancipatórios, relacionando a investigação- formação versus profissão docente. Abordagens biográficas propositivas em direção à transformação da profissão. Foco na autonomia do professorado, dar voz ao professor. A investigação tem abordagens narrativas através de redação de diários e relatos de desenvolvimento

Esta abundância de interesses, de concepções e de estratégias investigativas tem na história de vida, no relato do indivíduo envolvido em seu fazer prático profissional o ponto fundamental para o entendimento da identidade do professorado. As reflexões estão fundamentadas “em materiais já existentes (memórias, diários etc.), ou desenvolvimento de uma produção (auto)biográfica com objetivos específicos” (NÓVOA, 2000. p. 23), compreender para transformar a educação escolar, o ensino e as relações identitárias e formativas do professor, “produzir um outro conhecimetno sobre os professores”(Idem, p.23).

Uma variedade de técnicas para estudar as histórias de vida, autobiografias, auto-etnografias, através de narrativas, diários, fotografias, dramatizações dentre outras,   poderia nos levar a interpretar a resposta dúbia do músico que titubeia até responder que também é professor. As razões de tal comportamento, ou de insegurança na resposta podem estar expressas na sua história de vida, na sua narrativa, carregada do seu modus vivendi, que de per si, já poderia dar indícios consistentes para uma análise mais profícua.

 

Referências

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Trad. Ivone C. Benedetti. Ed. Martins Fontes, 5ª edição. São Paulo. SP.

CRESWELL, John W. Investigação Qualitativa & Projeto de Pesquisa. 3ª Ed., Porto Alegre:

Penso, 2014.

DORTIER, JEAN-FRANÇOIS. Dicionário de Ciências Humanas. Ed. Martins Fontes. SP. 2010

JUNG, Carl Gustav, Psicologia do inconsciente. tradução de Maria Luiza Appy. Petrópolis, Vozes, 1980

MESQUITA. RAÚL; DUARTE. FERNANDA. Dicionário de Psicologia. Plátano Editora, S.A. 1.a Edição E-1996.

NÓVOA, A. Formação Contínua de Professores: Realidades e Perspectivas. Comunicação apresentada no 1º Congresso Nacional da Formação Contínua de Professores. Aveiro: Universidade de Aveiro, 1991.

______. Os professores e suas histórias de vida. In: Vidas de professores. Porto Editora. Porto, PT. 2ª Ed. 2000.

PRIBERAM. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLOP/ontologia [consultado em 01-10-2014].

SILVA. K. V. e SILVA M. H. Dicionário de Conceitos Históricos. Ed. Contexto – São Paulo, 2006.

 

[1] Ontologia, In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLOP/ontologia [consultado em 01-10-2014].

[2] Para se ter um panorama concreto deste controle, ver o livro ‘Dimensões contextuais da educação brasileira:A Educação nas mensagens presidenciais de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek 1951-1960.’ Reis, Carlos Eduardo. NUP. Núcleo de Publicações. UFSC. 2011.

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Jornalista, Professor, Escritor...

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